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Posted on: 12/20/14 3:16:56 AM UTC
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sexta-feira, 10 de julho de 2026
Ann
ficção
Olho fixo para as pessoas, é assustador. Incomodo, ou não. Ficar sozinho é uma necessidade e não uma escolha. Confesso que na repetição dos dias é o que eu espero, ficar sozinho. Existo porque alguma criança se agarra às minhas pernas e a mãe diz larga o senhor
O resto é um mundinho mecânico. Como é impossível não haver comunicação, lá comunicas, mas não sabes o que comunicas. Há um vazio sem o tremendismo do nada. Se isso consiste num consolo, a mim não me consola.
Porém a própria repetição pode gerar algumas teias disruptivas.
Olhamos o estranho, todos dias, anos a fio, e a minha natureza néscia não identifica mecanismos para esbater essas fronteiras.
No autocarro, a Ann ficava tensa. Eu amava cada milimetro daquela aura de presença até o peso da respiração mostrava encantos. Ela procurava ficar o mais longe de mim e eu tentava não ser medonho. Nada como ser subtil. Sorrir, acomodar-me. Nem sempre me acomodava, nem sempre sorria. Deixamos de nos ver tão amiúde.
Até certo dia, estava na paragem à minha espera, segue-me. "O que faz ela aqui sorrindo?"
O resto sabe-se. Ann volitizou-se. Reapareceu anos depois na lavandaria. Tarde demais. No buliço do dobra roupa, escutei o nome. Pergunto se um dia esquecerei.
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