As pessoas que estudam costumam desenvolver uma maior capacidade de
compreender o mundo, de saber falar e escrever corretamente sobre
múltiplas realidades.
Ricky, decidiu envolver-se nos estudos das
ciências sociais e na escrita de artigos científicos na área da micro
sociologia. Era um observador participante naquele bairro. Certas leituras
eram para ele como escrituras, o facto de não ainda não ter encontrado na sua aturada pesquisa documental artigos sobre pessoas e seus comportamentos nos transportes seria
uma tremenda pecha para o conhecimento científico. Sem brilhantismos,
era um homem aplicado, ainda que no meio da solidão dos livros e pixeis. A rotina do trabalha e estuda estava prestes a ser quebrada por uma saída e naquela ocasião com uma rapariga chamada Tracy, que tinha rosto longo de tez pálida. Tinha a tendência para se mostrar-se lacónica em muitos dos seus gestos, até porque não acompanhava os temas entediantes
de conversa dados por Ricky. E havia também dificuldade em puxar
assunto. Foi na inauguração da loja dos chineses que se conheceram.
O ponto de encontro, naquela tarde foi a porta do talho do Rofy, onde depois rumariam sem caminho, nem destino pré-definidos.
O
primeiro contacto foi normal, o cumprimento com dois beijos no rosto.
De seguida: um comentário sobre a hedionda cabeça inteira de um porco na
montra. Durante aquelas voltas ao quarteirão ele retratava toda as
politicas de transportes da cidade, as marcas dos autocarros, o que eles
consumiam, etc. Tracy, comentou logo, que não é possível uma pessoa
ligar tanto a autocarros quando outras coisas seriam bem mais
interessantes. E o homem teimava, e sobretudo insistia para que ambos
fossem dar uma volta de autocarro num percurso que era por sinal lhe
peculiar. Foi com dificuldade que ela acedeu àquela proposta.
Na
paragem, esperaram uns minutos pelo aparecimento do veículo, e quando
este ocupa realmente o quadrante da paragem, Tracy diz: - Estás ver,
lá por ser um Mercedes, é apenas um autocarro e estas pessoas, não têm
nada demais.
Ricky frustrado, quase a chorar porque a sua
companheira não compreendia que ele estava perante uma nova maneira de
se fazer ciência em espaço urbano. Desata logo, a citar autores de
diversas bibliografias por ele consultados no decurso da investigação. E
numa nova réplica, veio uma resposta: - ok, mas fora esse trabalho, um
autocarro é uma coisa sem qualquer importância.
Já enervado,
tentando esconder a sua tamanha ira, o nosso homem diz: - Mas este
autocarro é aquele que me leva todos dias à casa da minha mãezinha. E
garanto-te que nunca avariou.
Tracy: - Oh homem, se não fosse este, seria um outro qualquer, o que isso importa?
Ricky: - Também nos podemos apaixonar pelos objectos!
Tracy: Não sei como?!
Então
Ricky, apenas responde: - Assim… – dando um beijo repenicado na chapa
lateral do autocarro. Logo de imediato, Tracy despede-se com a seguinte
resposta: - Tarado e anormal do caralho!
Pecado: Quando
Tracy disse que o autocarro não tinha qualquer importância, Ricky
poderia logo focalizar-se nela deste modo: - Claro que sim, sabes o que é
importante? “Tu e eu” abraçados um ao outro a dizer palavras bonitas. -
Depois disto, darem longos beijos e serem felizes.
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